sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Para criar um bebê só é preciso senso comum

Um certo tempo atrás recebi de uma amiga esse texto, um pediatra espanhol que demonstra a mesma vontade que sempre tenho! Vale a pena ler a entrevista dele e repensar a criação de nossas crianças

A matéria foi retirada daqui


O pediatra espanhol Carlos González, autor do livro Bésame Mucho, regressou
a Portugal, a convite do projeto Mamar ao Peito, para uma conferência sobre
amamentação. Em entrevista à Pais&filhos, falou dos temas que mais preocupam
os pais. Basta ouvi-lo, lê-lo, para se ficar com a impressão de que ter
filhos é a coisa mais fácil do mundo.

Porque é que as crianças resistem tanto ao sono? Porque é que tantas vezes
não querem dormir?

A minha teoria é que os bebés, na nossa sociedade, têm medo de ficarem
sozinhos. A maioria das mulheres do mundo anda com os filhos às costas todo
o dia. A nós, europeus, custa-nos compreender que somos muito poucos e que,
na maior parte do mundo, não é como nós fazemos. Na maior parte do mundo, os
bebés andam às costas da mãe durante todo o dia e dormem com a sua mãe à
noite. Para os bebés africanos ou peruanos, que andam nas costas da mãe todo
o dia, é igual estarem a dormir ou estarem acordados, porque adormecem e
acordam e continuam junto da sua mãe. Mas, na nossa sociedade, assim que o
bebé adormece pomo-lo no berço. Então, os bebés europeus passam várias vezes
por dia pela experiência de que estão com a sua mãe quando adormecem e
quando acordam estão sozinhos. E eu penso que chegam à conclusão de que é
melhor não dormirem. Porque, senão, a mãe vai embora.



Há muitas críticas ao co-sleeping. Que prejudica a autonomia da criança, que
estraga o casamento…

Se não prejudica o marido, não vai prejudicar o bebé. Há muitas mulheres que
dormem com os seus maridos e isso não prejudica a sua independência, o seu
crescimento, não acontece nada.



Mas não pode prejudicar a relação?

Todos os nossos avós dormiam com os filhos e tinham muitos mais filhos do
que agora… De alguma maneira se consegue.

(abre o livro de Fernando Pessoa e lê)

“Quando eu morrer, filhinho,/Seja eu a criança, o mais pequeno./Pega-me tu
ao colo/E leva-me para dentro da tua casa./Despe o meu ser cansado e
humano/E deita-me na tua cama./E conta-me histórias, caso eu acorde,/Para eu
tornar a adormecer./E dá-me sonhos teus para eu brincar/Até que nasça
qualquer dia/Que tu sabes qual é.”

Isto era o normal em 1914.



A solução para as crianças que acordam muitas vezes à noite é levá-las para
a cama dos pais?

O problema é que existe uma grande desconfiança em relação às mães e a tudo
o que elas fazem. A desconfiança existe na sociedade e nas próprias mães,
que não têm confiança em si próprias. Os bebés acordam várias vezes durante
a noite, principalmente a partir dos quatro meses. Se eu digo: «Quando o
bebé acordar de noite, faz-lhe uma massagem» e a mãe faz e o bebé adormece.
A mãe pensa: «Que bem que funciona a massagem». Se digo para pôr a cama
virada para oriente, seguindo as indicações do Feng Shui, e ele adormece, a
mãe pensa: «Que bom é o Feng Shui». Mas se digo: «Mete-o na cama contigo», e
ele adormece, ninguém diz: «Que bom é ele dormir comigo». Em vez disso,
dizem: «Este bebé não dorme, se não o ponho na minha cama não dorme». Ou
seja, é algo que funciona, mas parece que é mau. E passa-se o mesmo com o
chorar. Dizemos: «Este bebé só chora, enquanto não lhe dou colo não se
cala». Mas se lhe dermos um medicamento e ele se calar dizemos que o
medicamento é maravilhoso.

Os bebés são muito fáceis de criar, muito fáceis de cuidar, só há que usar
um pouco o senso comum, ver o que funciona e o que não funciona,
lembrarmo-nos de quando fomos crianças. Não é assim tão difícil.



Porque é que tantas crianças não querem comer?

Quando dou uma conferência, estou numa sala com 100 mães e pergunto: alguma
vez, algum médico ou enfermeiro lhes disse que o seu filho tinha pouco peso?
Metade da assistência levanta a mão. Depois, pergunto: alguma vez, o seu
médico ou enfermeiro lhes disse que o seu filho pesava muito ou estava
gordo? Levantam a mão duas ou três. Como é possível que, num país onde o
maior problema de saúde é a obesidade infantil, os médicos só encontrem três
gordos e encontrem 50 magrinhos? Estamos loucos. Nós, os médicos, estamos a
recomendar uma quantidade exagerada de comida e, às vezes, conseguimos que
as crianças comam o que recomendamos. A obesidade infantil é devida, além de
outros fatores, a milhares de médicos que dizem aos pais que os seus filhos
têm de comer mais. Não é cair no absurdo de dizer que pese o que pese é
normal e não tem importância. Há coisas que não são normais. O estar
demasiado magro é estar fora do gráfico [de percentis]. O cinco por cento é
normal, assim como o 95. Até o percentil um é normal.



Os pais fazem muitas coisas para tentar convencer os filhos a comerem: o
aviãozinho, cantam. Sei que é contra tudo isto.

Sim. Não há que fazer nada nunca para obrigar o bebé a comer. Nem coisas
boas, nem coisas más. Nem dar-lhe castigos por não comer, nem dar-lhe
prémios por comer tudo, nem distraí-lo para que coma. Porque um bebé
saudável comerá o que precisa e um bebé doente não ganha nada se o
obrigarmos a comer.



Como é que uma mãe pode saber que o bebé está a mamar o suficiente?

Na realidade, é muito difícil saber. Serve de pouco ver quanto tempo o bebé
está na mama, porque uns demoram mais tempo do que outros, uns mamam mais
vezes do que outros. Costuma dizer-se às mães que vejam se o bebé faz
chichi, se faz cocó. Mas isso é pouco útil e leva muitas mães a ficarem
obcecadas, a apontarem sempre quando o bebé faz chichi e cocó. A única coisa
que pode comprovar se o bebé está a comer bem é o seu peso. Por isso, é
importante controlar o peso dos bebés nos primeiros dias, logo a partir dos
dois, três primeiros dias de vida. Depois, é absurdo pesar um bebé todas as
semanas. Basta olhar e vê-se que está bem. Mas é muito difícil dar confiança
a uma mulher, porque parece que há como uma tendência espontânea para ter
medo de tudo.  Penso que as mulheres necessitam é de informação, de apoio,
acho que é muito útil ir a um grupo de mães durante a gravidez, sem esperar
por ter um problema.



Defende muito o natural, mas faz questão sempre de frisar a importância das
vacinas…

Eu não defendo o natural, defendo o que é melhor para as crianças. Defendo
que se deve dar colo às crianças. Porque é natural? Não, porque é o melhor
para as crianças. Também acho que as crianças devem andar calçadas e isso
não é nada natural.

Há gente muito tonta que diz que o poder dos laboratórios obriga as vacinas
a estarem no plano de vacinação. Em Espanha, por exemplo, fecharam-se pisos
inteiros de hospitais por causa da crise. Mas não se atrevem a retirar as
vacinas do calendário. Se os laboratórios têm tanto poder, como permitiram
que houvesse tantos cortes na saúde? O governo sabe que se cortasse a vacina
da difteria, daqui a cinco anos haveria uma epidemia de difteria. É curioso
como algumas pessoas usam a bandeira da Organização Mundial de saúde para
defender o parto natural e a amamentação, mas se a OMS recomenda as vacinas
dizem que está vendida aos laboratórios. Uma vacina nem custa dez euros.
Houve alturas em que os governos quase tiveram de obrigar os laboratórios a
fabricarem vacinas, porque elas são tão baratas que o seu fabrico não
rendia.



Os bebés têm mesmo cólicas?

Sim... mas as cólicas não são nada. É uma maneira de dizer que ele chora e
não sabe o que se passa.



Mas doi-lhes a barriga ou não?

Não há maneira de saber. Não lhe podemos perguntar o que se passa. O que
sabemos é que uns bebés choram menos, outros choram mais. Alguns ficam bem
no berço outros não. E sabemos que os bebés choram menos se lhes dermos mais
colo.



O colo e o mimo são a melhor solução?

Sim, claro. Há pessoas que dizem: «Se dás muito colo a um bebé, ele
habitua-se». Se é assim, se o deixares chorar, ele também se habituará. Mas
as duas coisas são mentira. Esta teoria da habituação é absurda. Muita gente
crê que as crianças se habituam a tudo por repetição. «Se a pões na tua
cama: habitua-se e não vai querer sair da tua cama. Se lhe dás colo:
habitua-se e vai querer sempre colo.» Então se lhe puseres a fralda,
habitua-se vai querer sempre fralda. É absurdo. Ninguém usará fralda aos 18
anos por causa disso. Quando o teu filho é criança faz coisas de criança e
quando for adulto fará coisas de adulto. Não muda porque o educaste, muda
porque cresceu.



O que é que um bebé precisa para ser feliz e saudável?

Para ser feliz, basicamente, precisa da sua mãe (ou alguém que faça o papel
da mãe). Para ser saudável… precisa de sorte. Há coisas que podem ajudar,
mas, no fundo, é tudo uma questão de sorte.





ALIMENTAÇÃO



As crianças sabem o que têm de comer?

Todas as crianças sabem, todos os animais sabem. Um leão quando tem de comer
come.  Um mosquito quando tem fome pica. Até um mexilhão, que não tem
cérebro, sabe quando tem de comer. É automático.



Mas as crianças, muitas vezes, preferem comer bolachas e iogurtes em vez de
carne e peixe.

As crianças gostam mais de uns alimentos do que de outros. É normal. Nós
adultos também. Mas os pais perguntam: «se as deixarmos comer o que querem
não comerão só doces?» Uma criança de dois anos só comerá doces se em casa
houver doces. Se os pais não querem que os filhos comam doces, não devem ter
doces em casa. Devem ter em casa apenas a comida que achem que seja
saudável. E assim, a criança poderá comer o que quiser, pois tudo será
saudável.



E os legumes e as verduras? Porque é que as crianças os odeiam tanto?

A maioria das crianças não gosta de verduras, não gosta de fruta, não gosta
de sopa porque são alimentos baixos em calorias. As verduras são muito
saudáveis, mas são mais saudáveis para os adultos e com o tempo o nosso
gosto muda. De certeza que agora comes mais verduras do que há 20 anos. As
crianças têm o estômago muito pequeno e se o enchem de coisas com poucas
calorias não conseguem comer o suficiente. Em África, por exemplo, há
crianças desnutridas, mas os pais estão bem. Porquê? Porque só comem
mandioca e outras coisas que têm poucas calorias. Um adulto pode comer dois
quilos de mandioca, mas às crianças essa quantidade não lhe cabe na barriga.
E é por isso que quase todas as crianças preferem alimentos com muitas
calorias, como massa, batatas fritas, pizza, bolos e a fruta que preferem é
a banana, porque tem mais calorias. Há purés de verduras com menos de 15
calorias, não é comida!

2 comentários:

  1. Wow!!! Impressionante! Aprendi muito com essa postagem! Obrigada por publicá-la! =)

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  2. Ro, é exatamente o que penso!! sabe quando le um texto e percebe que bate com tudo?

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